Med360 - Infarto também acomete mais jovens

Infarto também acomete mais jovens

O infarto agudo do miocárdio, que para muita gente ainda é visto equivocadamente como uma doença que acomete apenas pessoas mais velhas, tem se tornado cada vez mais comum entre pessoas mais jovens. Segundo informações da Sociedade Brasileira de Cardiologia, no Brasil, doenças do coração matam duas vezes mais que o câncer e seis vezes mais do que qualquer tipo de infecção.

Dados do Hospital de Clínicas da Universidade Federal de Uberlândia (HC-UFU) apontam que esse tipo de situação acontece cada vez mais cedo. Em 2016, houve um caso em uma criança com menos de 10 anos. De 2015 para cá, três casos entre jovens de 20 a 25 foram registrados. Seis pessoas entre 25 e 30 anos infartaram nos últimos cinco anos. Na mesma época, foram registrados 20 casos em pessoas entre 30 e 35 anos. Houve ainda 39 registros entre pessoas de 35 a 40 anos, 67 entre pessoas de 40 a 45 anos e 146 entre pacientes de 45 a 50 anos. Aos 35 anos, o professor de educação física Mário Luís Guimarães sofreu o primeiro infarto. Ele sentiu azia, vomitou, suou frio e teve dores no peito e no braço. Na época ele dava aula de natação, foi socorrido por colegas e ficou por nove dias internado no hospital.

Eu era árbitro de basquete e fui convidado para fazer um teste para arbitragem. Como estava acima do peso, resolvi fazer uma dieta muito restritiva e comecei a fazer exercícios de manhã, tarde e noite. Depois que fiz o teste e voltei para casa tive um infarto”, disse Mário Luís. Segundo o professor, o médico explicou que o ataque cardíaco aconteceu por conta do exagero de exercícios e a mudança repentina na alimentação. Três anos mais tarde, o professor estava trabalhando em casa quando começou a sentir novamente a mesma azia e dores da época em que infartou dando aula. “Eu acordei a minha esposa e ela me levou ao hospital. A artéria coagulou de novo, tive que colocar mais três stents [implantes permanentes que suportam a parede do vaso e o mantém aberto]”. Depois dos dois episódios, Mário Luís, atualmente com 44 anos, mudou os hábitos alimentares, diminuiu o alimento industrial, o consumo de pão e de açúcar, e passou a praticar atividades físicas regularmente. Segundo o Departamento de Informática do Sistema Único de Saúde (Datasus), em 2013, o número de internações de pessoas infartadas com menos de 40 anos aumentou 13% no Brasil. MOTIVOS
Segundo o cardiologista João Lucas O’Connell, casos de infarto em pessoas com menos de 50 anos tem sido comum nos últimos anos. Estresse, sedentarismo, uso exagerado de cigarro, drogas ilícitas e bebidas como energético são fatores que levam ao infarto. Diabetes, pressão alta e colesterol, comuns entre as pessoas mais velhas, também estão associados. “Em geral, o infarto acontece quando uma placa de gordura vai crescendo e entope uma artéria do coração. O detalhe é que em pessoas mais idosas, as placas que levam ao infarto vão aumentando progressivamente, isso dá tempo para o coração readaptar. Quando entope de uma vez, o coração envia sangue para ele mesmo. No jovem isso não acontece”, afirmou o cardiologista. Em pessoas mais novas, o infarto pode ser ainda mais perigoso, porque o coração não está “preparado” para esse processo, segundo o médico. Ainda de acordo com o cardiologista, o ideal é afastar os fatores de risco. Manter a pressão e o colesterol controlados, evitar o sedentarismo praticando exercícios regularmente e ter uma alimentação saudável, evitar exageros como carboidrato e gordura saturada. SUSTO
Leo (nome fictício, a pedido do entrevistado), de 25 anos, começou a prestar atenção na sua rotina depois de infartar enquanto trabalhava, quando tinha apenas 20 anos. Na época, ele era atendente de telemarketing durante o dia, fazia faculdade à noite e trabalhava em uma boate nos fins de semana. No dia em que passou mal, o jovem tinha dormido apenas 4 horas durante à noite. Quando chegou ao trabalho, pela manhã, ele se sentia cansado, não conseguia comer e nem tomar água. “Com o passar das horas, eu fui esquentando, comecei a sentir muita dor no peito. Logo senti meu braço esquerdo doer bastante, não conseguia nem andar de tanta dor. A última coisa que eu me lembro, com precisão, é de deitar na porta da empresa e travar os dentes”, disse. Leo foi socorrido por um colega de trabalho e levado ao hospital. O jovem lembra que sentia dificuldade de respirar antes de ser atendido. “Me deram muitos comprimidos. Eu dormi e acordei melhor”, disse. Quando o jovem recebeu um diagnóstico, levou um susto. Segundo o médico dele, o infarto foi causado por estresse e privação de sono. “Ele disse que eu tinha que diminuir meu ritmo e que foi uma sorte muito grande eu ter escapado com vida, porque na idade que eu tinha, costuma ser fatal.” O jovem continuou fazendo exames e nunca mais apresentou nenhum dos sintomas. Atendendo às indicações do médico, Leo desacelerou, deixou um dos trabalhos, trancou a faculdade por um tempo, passou a fazer exercícios e a dormir melhor. “Passei a respeitar os limites do meu corpo e não tive mais problemas com o coração”, afirmou. ÓBITOS
Entre 2008 e 2016, a Sociedade Mineira de Cardiologia registrou 21.398 casos de óbitos por infarto no Brasil entre homens e mulheres de 30 a 59 anos. Na maioria das regiões do País, o sexo masculino apresentou maior quantidade de mortes notificadas, com 13.587 óbitos. Já em relação ao sexo feminino, 7.811 registros foram feitos neste período. Entre esses óbitos, tanto no sexo masculino como feminino, houve maior incidência na faixa etária de 50 a 59 anos. A região Sudeste registrou o maior número de óbitos (47,9%), seguida pela Nordeste (20,2%) e Sul (14,8%). As regiões Norte e Centro-Oeste se aproximam com 8% e 9,1%. Neste mesmo intervalo de tempo, o Sudeste registrou 47,8% das mortes por infarto entre pessoas de 40 e 49 anos. A mortalidade na faixa etária de 50 a 59 nas regiões do Brasil também se apresenta maior na nossa região (50,8%)